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Felipe Giro vence timidez para ser multicampeão virtual

Quando Rubens Barrichello venceu o Grande Prêmio de Valência naquele longínquo 23 de agosto de 2009, não sabia que estava prestes a mudar para sempre a vida de um dos milhares de adolescentes apaixonados por esportes. Foi naquela época que Felipe Pereira Giro, então com 13 anos, viu mais de perto o sabor de ter um brasileiro no topo mais alto do pódio da Fórmula 1.

“Eu ligo a TV de manhã e surge uma matéria no Esporte Espetacular sobre a vitória do Barrichello em Valência. Duas semanas depois, a mesma coisa: ligo a TV e está lá o finalzinho da etapa de Monza. De novo, vitória do Barrichello!

Como praticamente um nativo da era da internet, o moleque Felipe logo correu para o site do Globo Esporte e percebeu algo que podia mudar o rumo do automobilismo nacional. Após um 2008 com Lewis Hamilton superando Felipe Massa na luta pelo título, era a vez de um brasileiro reverter a situação sobre um britânico. “Já me programei para assistir a próxima etapa em singapura e não parei mais”, conta Felipe.

Mas, este é só o começo de uma história que, ao longo desses 14 anos anos tornou este brasileiro uma das referências quando o assunto é Fórmula 1 no automobilismo virtual.

Do single player para o multiplayer

Tudo começou em 2010. Nesta época, Felipe conheceu o simulador rFactor, um dos mais usados pelos pilotos virtuais. Entretanto, enquanto muitos já partiam para o multiplayer, Felipe queria saber era de jogar contra a máquina.

Conforme ele, existiam três motivos para isso. Primeiro, porque gostava da diversão das corridas offline. Em seguida, porque o rFactor permitia a personalização do jogo por meio de MODs (algo que ele adorava fazer). Por fim, a timidez e o estilo “low profile” de ser.

Porém, os insistentes convites de Yuri Bascopé, fundador da equipe Bravo Snow Schatten, o fizeram mudar de ideia.

“Depois de um tempo, quando finalmente pude ter noção de como funcionam as ligas, aceitei a correr pela equipe dele em um campeonato de GP3 (como era chamada a Fórmula 3) no próprio rFactor”, conta. A parceria, que começou em 2013, continua até hoje.

Felipe, o Hamilton da F1 virtual

Felipe Giro nas pistas virtuais
A bordo do Mercedes W13, para iRacing, plataforma que conquistou diversos títulos nacionais

Para alguns, a alcunha pode parecer um exagero. Mas confesso quem não. Quem o acompanha no Twitter sabe muito bem do que estou falando. Ao mesmo tempo que temos a divulgação de seus resultados nas pistas virtuais, acompanhamos suas manifestações sobre assuntos importantes – e, sim, também sobre questões raciais.

Além disso tudo, Felipe também é um multicampeão de Fórmula 1. Esta, aliás, é a única categoria que se dedica de corpo e alma no esport.

“De lá pra cá, só andei sério mesmo em campeonatos de F1, seja norFactor, no GSC, no rFactor 2, nos F1 da Codemasters/EA e no iRacing“, diz. E ele explica o motivo: “Acho que por ser, de longe, o carro que mais precisa de concentração e por ser um dos mais difíceis de guiar, sempre me atraí por ela.”

Porém, o foco agora está apenas no iRacing. Mesmo com as conquistas que teve na franquia oficiual da Fórmula 1, decidiu ficar apenas na plataforma que oferece diversos tipos de carros e pistas.

Por mais pilotos de cor no AV

Como dito anteriormente, uma das questões que chamam a atenção no Felipe Giro é o fato de ser um piloto negro. Por mais que, virtualmente, existe uma certa equidade no quesito racial, é sempre importante mostrar como os espaços estão sendo ocupados.

“Eu tenho a crença de que, assim como em qualquer modalidade, não só do esporte, como em qualquer área social, você ter uma figura de representatividade para acreditar que o esforço será recompensado, facilita muito a sua iniciativa, para que você dê o primeiro passo”, exemplifica.

Desde o início da sua jornada, Felipe conheceu e foi companheiro de vários pilotos virtuais de cor. “Sempre fico internamente feliz por ver cada vez mais gente assim inserido no meio”.

Parte disso, acredita, vem do fato do processo de conscientização do que é e do que foi a distinção de cor na sociedade. Com isso, ele acredita que, no automobilismo virtual, é um processo que ocorre natural e gradualmente.

Planos para sair do virtual?

Muitos dos que entram para o esport têm, nessa plataforma, a esperança de um dia se tornarem pilotos reais. Foi assim com Jann Mardenborough ou, como você leu aqui, com Bruno Fernandes. E, igual a eles, existem milhões espalhados pelo mundo.

Mas, com Felipe, é diferente. Apesar de ficar feliz com a trajetória do amigo e companheiro de Snow Schatten (Bruno e Felipe competem nesta equipe), o seu foco é outro.

“Sempre tive interesse em trabalhar no automobilismo através do audiovisual. Isso sim, é um projeto de vida que tento levar para frente.”

Essa escolha ocorreu porque o automobilismo virtual mostrou esse caminho. Começou fazendo os melhores momentos dos campeonatos em que ele e a equipe participavam. Assim, criou o seu portfólio.

Hoje, aos 27 anos, espera poder trabalhar no meio.

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