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Respeitem a privacidade da família Schumacher

Antes de iniciar a leitura deste texto, quero deixar ciente de algo muito importante: ele será diferente dos que você está acostumado a ler por aqui. Entretanto, não poderia deixar de tocar neste assunto, pois a minha ética profissional não deixa. O que uma parte – mesmo que pequena – da imprensa faz com a família Schumacher é, no mínimo, antiético. Dito isto, se você chegou até aqui, é porque sabe da importância deste assunto. Então, desde já, o meu muito obrigado.

No dia 10 de janeiro de 2009, por volta das 20h30min, estendi a minha mão direita junto de outros 39 colegas. Diante da mesa composta pelo reitor da universidade, paraninfo, dois professores e dois funcionários homenageados, fiz o seguinte juramento.

Juro solenemente, no exercício de minha profissão, ser fiel aos ditames da honra, da Justiça e da ética, preservando a dignidade e a integridade da pessoa humana.

Mas, o que isso tem a ver com a história de Michael Schumacher? Antes de partir para o próximo tópico, dá uma olhada no tuíte abaixo, da Débora Almeida, do Boletim do Paddock.

O Jornalismo no Brasil e na Alemanha

Lembra do juramento citado acima? Pois, bem. Eu e muitos colegas não falamos da boca para fora. Tanto é que fiquei muito tempo longe da profissão, por discordar dos rumos que ela tomou com o passar do tempo.

E isso tem muito a ver com o que aconteceu em 2009. Na época, poucos meses após a minha diplomação, o STF derrubou a obrigatoriedade do diploma para exercer a profissão. Não vou entrar no mérito da decisão, mas posso dizer com todas as letras: a classe perdeu muito.

Tanto é que hoje, 14 anos depois, há um Projeto de Lei que busca restabelecer essa obrigação. Uma discussão muito importante, ainda mais quando existem portais criados justamente para criar fake news.

Nem todos os países exigem formação superior

Neste artigo, publicado no portal da Câmara dos Deputados em 2010, há um fato interessante: muitos países não exigem diploma universitário para jornalista. Entre estas nações, está a Alemanha.

Entretanto, há algumas condições determinantes para se permitir a atuação por lá.

Apesar de não precisar de formação superior, a profissão é regulamentada entre empresas jornalísticas e organizações profissionais. Entre as regras, está a necessidade prática de 18 meses a 24 meses antes de poder ser considerado jornalista.

Só que apenas a prática não basta. As teorias das profissões são essenciais para irmos muito além de como narrar fatos. O debate sobre a ética jornalística é essencial, e ela passa por muitas outras disciplinas que só quem frequenta os bancos acadêmicos conhecem.

Uma delas é a semiótica (ou semiologia). O Observatório da Imprensa mostrou, neste texto, um exemplo claro de que a falta deste estudo minucioso pode causar a desinformação.

Ter diploma não significa ter ética

Antes de passar para o próximo tópico, isso precisa ficar claro. Ética é algo que vai além da diplomação. Por exemplo, quantas denúncias de médicos que cobram “por fora” para fazerem cirurgias pelo SUS – que é gratuita?

Ou então, quantos casos de desvios éticos no Poder Judiciário já vieram à tona? E olha que estou falando de profissões que exigem diploma e são consideradas as mais importantes do país.

Ética é algo interno. Ou a pessoa tem ou ela não tem. Não importa o diploma.

Ok, mas o que isso tem a ver com Schumacher?

Nos tópicos anteriores, dei uma pequena “ilustrada” sobre como nós, jornalistas, precisamos ter responsabilidade sobre aquilo que reportamos. Porém, nem sempre a apuração será perfeita e, como seres humanos, podemos errar.

O problema é quando o jornalista, ou a empresa jornalística, resolve jogar toda a credibilidade da profissão no lixo em busca de cliques ou de vendas de exemplares. Foi o que a revista alemã Die Aktuelle fez na sua edição mais recente.

Para entender o contexto…

Desde o seu acidente, em 29 de dezembro de 2013, temos poucas informações sobre as condições do heptacampeão. A família guarda a sete chaves as reais condições de Michael Schumacher, o que contribui para uma série de especulações.

Volta e meia aparece alguém querendo holofote em cima do alemão. Inclusive, com gente que se dizia amiga da família e tentou vender fotos de Schumacher.

Ou seja, tem cretino em tudo o que é lugar.

Respeito à privacidade dos Schumacher

Há quem critique a família Schumacher por fazer todo o possível para evitar vazamentos de informações. Usam como argumento o fato dele ser um dos grandes nomes do automobilismo e uma pessoa pública.

Em resumo, para essas pessoas, ou Corinna, Gina e Mick façam fotos e vídeos de Michael e postem nas redes sociais, ou aguentem essa invasão de privacidade.

Não, né, galera?

Assim como eu, como você, os Schumacher têm o total direito tornar público apenas aquilo que consideram necessário. Como disse Corinna no documentário Schumacher, “Michael sempre nos protegeu; agora estamos protegendo ele.”

E você, faria diferente se fosse com algum parente seu?

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