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Por que mulheres no automobilismo metem medo?

Este texto foi feito para você, homem que não aceita mulheres como produtoras de conteúdos sobre automobilismo. E também para você, que até aceita, mas quer dizer como, quando e para quem elas devem direcionar.

Você é um babaca.

Primeiro, porque já estamos em 2022 e esse pensamento retrógrado deveria ter sido dizimado há muitos anos. O segundo ponto se trata sobre conhecimento do assunto: quem disse que nós, homens, somos os detentores de tudo sobre esporte a motor?

Segue a leitura que você vai ver como precisa mudar essa cabeça, e pra ontem?

As mulheres em ambientes dominados por homens

Caso não saiba, as mulheres já são 19,3% do total de engenheiros cadastrados no Conselho Federal de Engenharia e Agronomia (Confea). Ou seja, dos 1.035.103 registros ativos no Brasil, 199.786 são femininos.

Porém, mesmo com esse interesse crescente das mulheres pelo riscado, apenas 15% (29.967) estão empregadas.

“Ah, Rodrigo, mas o que tem a ver engenharia com comunicação, que é o foco desse texto?”

Tudo a ver. Sabe por quê?

Hoje, vejo com muita alegria o crescimento de mulheres no jornalismo esportivo. Não apenas na cobertura sobre diversos esportes, mas na narração e nas análises também.

Mas, sabemos que nem sempre foi assim. Basta ver esse depoimento da jornalista Aline Aguiar, uma mulher preta que, hoje, está na bancada do Bom Dia Brasil para transmitir notícias de Minas Gerais.

“Eu sempre tive o sonho de ser repórter esportiva. Meu pai é narrador, então eu fui criada nesse ambiente. Eu entrei na faculdade pra isso. Mas eu sou mulher. Mulher e negra” — Aline Aguiar, durante o MGTV 1.

A gente sabe por que isso acontece: machismo puro. No caso da Aline, machismo E racismo. E quem falar que é “mimimi” está assinando o atestado de machista e racista.

Machismo nosso de cada dia

Não sei se você usa as redes sociais, mas eu tenho visto muitos conteúdos e análises feitas por mulheres.

Tanto no Instagram quanto no Twitter, elas dão um banho em muito homem que se acha um novo Jean Todt ou a reencarnação do Colin Chapman.

Falam com muita propriedade e conhecimento. São advogadas, jornalistas, donas de casa, engenheiras. Não importa a sua atividade: elas sabem do que estão falando.

E sabe por que? Porque elas buscam a informação. Consomem tudo o que podem sobre automobilismo — não apenas a Fórmula 1 — e mandam ver, sem medo.

Cada uma com seu jeito: podcasts, reels, fios no Twitter, artigos em sites, e por aí vai. E isso conquista espaço.

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Por que as mulheres te metem medo?

O problema está justamente na última frase do tópico anterior: a conquista de espaço. Muitos de nós, homens, não aceitamos que elas ocupem espaços que “são nossos”.

A história mostra isso século após século.

Pulando para o século XXI, a gente não pode aceitar que mulheres ganhem 20,5% menos que os homens no Brasil, quando ocupam o mesmo cargo. Ou que só 38% das brasileiras ocupem cargos de liderança no país.

É inadmissível isso, quando as mulheres correspondem 51,7% da população.

Vai dizer que é incompetência delas, agora?

Menos escrotidão…

Dia desses, uma dessas produtoras de conteúdo expôs um cara que usou de todo o seu machismo para dizer que não queria fazer uma live com ela.

Entre os “argumentos”, vieram frases como “eu gosto de conteúdo técnico, não de fofoquinha de paddock” e também algo do tipo “essas mulheres que ficam rebolando pra falar sobre automobilismo”.

E é daí pra baixo.

Com essa exposição, abriu-se o boeiro e muitas mulheres foram até essa produtora de conteúdo dizer que esse cara usava o seu “perfil de automobilismo” para se aproximar das mulheres e tentar algo além de “conteúdo pra live”.

Como deve ter se acostumado a levar sonoros “não”, partiu pra agressão que todo machista adora.

Mais inspiração

Como já disse no Twitter, eu só voltei a escrever com mais consistência sobre automobilismo por causa de uma mulher.

A Sibely Santos, vulgo Sibs no Twitter, falou sobre sua participação em um congresso de jornalismo e passei a acompanhá-la com mais atenção.

Sua monografia foi sobre o espaço da mulher na cobertura do automobilismo que, em breve, será lançado como livro digital.

Depois dela, vieram outras mulheres produtoras de conteúdo que me inspiram a seguir em frente.

Se hoje eu também tenho o Push to Cast, também foi por causa de mulheres, como a própria Sibs e a Sonia Cury com o Entre Fórmulas, a Bruna Soares e a Ana Molinari com o Área de Escape, e a Débora Almeida com o BP Cast ao lado do Rubens Netto.

Para todos

Se acompanhar o automobilismo é para todos, por que a produção de conteúdo não poderia ser? Ou, se a produção é para todos, porque tem homem querendo dizer como mulher tem que fazer o seu?

Hoje, temos o poder de escolher o que queremos consumir. Não gosta, basta não dar play ou seguir.

É simples.

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