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Copa do Mundo, o Catar e o automobilismo

No dia 19 de novembro, uma plateia assistiu atônita ao desabafo do presidente da FIFA. Durante uma hora, Gianni Infantino fez duras críticas aos comentários contrários à Copa do Mundo no Catar. Para ele, elas são “profundamente injustas”. Contudo, será que está certo?

Próximo à abertura do campeonato, surgiram diversas denúncias sobre constantes desrespeitos aos Direitos Humanos no país. Aliás, os Direitos Humanos estão no estatuto da entidade futebolística. Porém, ela parece aplicá-lo apenas quando convém.

Por exemplo, todos sabemos que as relações homoafetivas são criminalizadas em muitos países. Tanto é verdade que o embaixador do evento em Doha, Khalid Salman, classificou a homossexualidade como um “dano da mente”.

Homossexualidade não é doença

O argumento vai contra a própria Organização Mundial da Saúde (OMS). Mesmo que de maneira tardia, a entidade de saúde removeu a orientação sexual da lista de doenças em 1990. Um ganho da comunidade LGBTQIA+, apesar dos contantes ataques que ela sofre política e religiosamente.

Ao contrário do Brasil, o Catar não é um país laico. Por isso, se aproveitou da religiosidade para proibir manifestações homoafetivas no país. Desta forma, situações de recusas em aceitar homossexuais em hotéis e as proibições de ostentar a bandeira de Pernambuco e de usar faixa de capitão de apoio aos LGBTQIA+ foram só a “cereja do bolo”.

Mas, o que tudo isso tem a ver sobre o automobilismo?

Segue a leitura do texto que você vai entender.

Mundial e F1 são negócios

Já era para você e eu entendermos que os esportes se tornaram grandes negócios há muito tempo. Por exemplo, falei do processo de expansão da Nascar pelo mundo neste texto sobre a Nascar Brasil Sprint Race.

Da mesma forma, outros esportes. Um exemplo é a NFL e o Super Bowl: os comerciais de 30 segundos estão entre os mais caros do mundo. Outro modelo de negócio esportivo é a NBA, que faturou 10 bilhões de dólares na temporada 2021/2022.

Com a FIFA e a Copa do Mundo, não seria diferente. No dia 20 de novembro, a entidade anunciou uma arrecadação de 7,5 bilhões de dólares.

Copa do Mundo e Mundial de Fórmula 1

Ao contrário do futebol, o mundial de Fórmula 1 não ocorre a cada quatro anos. Mesmo assim, vem em uma sequência de faturamento de encher os olhos dos acionistas. Só na temporada de 2021, foram arrecadados 2,14 bilhões de dólares.

E isso não é de hoje.

Bernie Ecclestone e a FOM

Se a Fórmula 1 chegou no estágio atual, deve muito ao inglês Bernie Ecclestone. Lá em 1985 ele criou a Formula One Management (FOM), responsável por todas as operações comerciais da categoria. Isso inclui desde o licenciamento do uso da marca Fórmula 1 até aos direitos de transmissão das provas.

Não é à toa que Ecclestone vendeu a sua empresa pela “bagatela” de 4,4 bilhões de dólares em 2017. Quem já era rico, ficou mais rico ainda.

Escolha de países sem tradição sediar provas

Percebeu como cresceu o número de etapas em países sem tradição alguma na Fórmula 1? É só ver o calendário do ano que vem.

  • 05/03 – Bahrein
  • 19/03 – Arábia Saudita
  • 30/04 – Azerbaijão
  • 17/09 – Singapura
  • 08/10 – Catar
  • 26/11 – Abu Dhabi

Não incluí a China aí por dois motivos. O primeiro, é porque Guanyu Zhou é chinês. Em segundo lugar, há grandes chances do Grande Prêmio não ser realizado. Ou seja: Zhou pode ser o primeiro de outros chineses no grid.

Mas, já se perguntou o que eles têm em comum?

Fórmula 1 cobra caro pelas provas

Você sabia que o Brasil poderia perder o direito de sediar o Grande Prêmio de São Paulo? Isso porque a Fórmula 1 cancelou a etapa de 2020, devido à pandemia. Enquanto alguns países tiveram o seu contrato estendido por mais um ano, o mesmo não aconteceu por aqui.

Em um dos episódios do Podcast Motorsport.com Brasil, os integrantes da mesa falaram que a taxa paga pela organização brasileira era inferior a de outros países. Situação semelhante à de Mônaco, que quase ficou de fora do calendário. Entretanto, ambas as provas renegociaram o contrato com sucesso.

A prefeitura de São Paulo pagou 125 milhões de dólares para renovar por cinco anos. Já o principado teve de abrir mão de alguns privilégios para ficar até 2025. Os monegascos esperam que Charles Leclerc vença ao menos uma prova até lá.

Apesar disso, outros países com tradição no esporte como França e Bélgica sempre estão na berlinda. O primeiro país, por exemplo, não está no calendário de 2023. O segundo, renovou por mais um ano – mas à duras penas.

Vai dizer que não é triste?

Dinheiro de sobra

Sabe o que Abu Dhabi, Arábia Saudita, Azerbaijão, Bahrein e Catar têm em comum? Todos têm sua economia baseada na exploração do petróleo.

Só para se ter uma ideia, a Arábia Saudita é o maior exportador de combustíveis fósseis do mundo. Além disso, a Saudi Aramco paga cerca de 40 milhões de dólares por ano como patrocínio à Fórmula 1. Dessa forma, entende-se por que ela está no circuito.

Já o Bahrein exporta 60% da sua produção de petróleo, enquanto o Azerbaijão está entre os oito maiores exportadores para a União Europeia. E o Catar? Ora, possui uma das maiores reservas do óleo e de gás natural do mundo.

Em resumo, dinheiro não é problema.

O que isso tem a ver com direitos humanos?

Tudo!

Trazer esse histórico é importante para entendermos os motivos da Liberty Media realizar provas de Fórmula 1 e da FIFA em sediar a Copa do Mundo nesses países. O dinheiro vem antes do esporte – e isso faz tempo.

E tem um adicional: pouco importa se eles respeitam os Direitos Humanos. O que vale, mesmo, é a cor do dinheiro.

Quer ver mais exemplos?

África do Sul e o Apartheid

Apartheid significa “segregação” em africâner. Foi uma política de separação racial entre brancos e negros na África do Sul. Enquanto a elite branca (de descendência europeia) tinha todos os privilégios, a população negra (que era o povo nativo) tinha quase nada de direitos.

Mesmo com a opressão violenta aos negros, isso não impediu da Fórmula 1 sediar provas por lá durante esse regime nefasto. Aliás, foi só com figuras corajosas como James Hunt que a categoria tomou vergonha na cara e pulou fora.

Brasil e a Ditadura Militar

Nós vivemos um dos períodos mais tristes da história pós-colonial entre 1964 e 1985. Nesses 21 anos, o Brasil ficou nas mãos da ditadura militar, que resultou em torturas, mortes e desaparecimento de pessoas contrárias ao regime autoritário.

Nada disso impediu a Fórmula 1 de desembarcar no país em 1972. Vale lembrar que, em 1968, o ditador Costa e Silva assinou o Ato Institucional de nº 5 (o popular AI-5). O decreto foi uma ferramenta de intimidação pelo medo, com uma ampla perseguição à esquerda, à oposição democrática e à igreja.

Um exemplo disso foi a morte do jornalista Vladimir Herzog. O profissional foi assassinado pelo regime em 1975, mesmo se apresentando espontaneamente aos militares. Isso tudo ocorreu durante o AI-5, que só foi revogado em 1979.

Vettel e sua camisa: mais um exemplo para a Copa do Mundo no Catar
Vettel com as cores em apoio à comunidade LGBTQIA+ na Hungria, em 2021

Hungria e a lei Anti-LGBTQIA+

Se você acha que só os países árabes são contra os LGBTQIA+, se engana profundamente. Por exemplo, a Hungria está presente no calendário do próximo ano. Integrantes da comunidade e ativistas temem constantemente repressões e perseguições devido à legislação do país.

Entre as mudanças aprovadas pelo governo de Viktor Orbán, estão:

  1. Proibição de pessoas trans de mudarem de gênero
  2. Determinação de que apenas mulher é mãe e homem é pai
  3. Proibição de casais homoafetivos adotarem crianças e adolescentes
  4. Censura a obras artísticas que abordem o tema

Mas não é só a Hungria nesse caso, viu?

Rússia contra os Direitos Humanos

Faz tempo que o mundo olha para a Rússia de uma maneira torta, e com muita razão. Afinal, o país está em constante ofensiva contra os direitos humanos. Por exemplo, a comunidade LGBTQIA+ do país convive há anos com leis discriminatórias.

Só para se ter uma ideia, desde 2013 é proibida “manifestações de valores que não estão de acordo coma visão tradicional heterossexual” para menores de idade. Parece que, assim como alguns brasileiros, há russos que acreditam no Kit Gay.

Tudo isso foi insuficiente para a Fórmula 1 repensar as provas no país de Vladimir Putin. Ou para a FIFA analisar se faria sentido realizar uma Copa do Mundo lá. A categoria só se mexeu depois da ofensiva contra a Ucrânia.

Porém, falei bastante de Fórmula 1, mas uma outra categoria também merece atenção especial.

Fórmula E também tem sua parcela

Assim como a Fórmula 1, a Fórmula E também é um negócio. Tem uma ideia louvável por trás que merece ser exaltada. Porém, também deve ser criticada quando necessário.

Além de sediar dois ePrix na Arábia Saudita em 2023, a categoria também estará na Indonésia. Para você saber, a intolerância e o preconceito contra os homossexuais crescem rapidamente no país. Sem contar as execuções por fuzilamento no país, consideradas um atentado aos Direitos Humanos.

Ressalto aqui que o país é membro da Organização das Nações Unidas (ONU). A entidade tem a prerrogativa de proteger os… Direitos Humanos.

“Hipocrisia” ocidental

Foi assim que Infantino, citado na abertura desse artigo, classificou as críticas que países ocidentais fazem ao Catar. Apesar de discordar da Copa do Mundo no Catar, tenho que concordar com ele em um aspecto: todos nós somos hipócritas, inclusive fãs de automobilismo.

Temos provas suficientes de que corridas são realizadas em países que estão ou estiveram “nem aí” para a liberdade individual das pessoas e continuamos a assisti-las.

Quer dizer que devemos aceitar e ficar quietos?

Não. Muito longe disso.

Devemos é fazer alguma coisa.

A pergunta é: a gente quer fazer?

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